No Bom Retiro

05.07.2016, 12h40

Em um cartório no Bom Retiro um casal de judeus pede passagem pela roda de coreanos. Eu vou atrás deles e procuro um lugar para me sentar: a primeira fileira é destinada aos idosos. A segunda já está tomada por dois caras que provavelmente não falam o mesmo idioma, mas sei que estão juntos, talvez comprando e vendendo um para o outro qualquer coisa.  Atrás deles há uma cadeira livre entre os bolivianos.  Todo mundo atendendo celulares e é assim, por acaso, que tenho a sorte de ouvir várias línguas diferentes ao mesmo tempo, no mesmo lugar, em um pedaço bem pulsante de São Paulo.





Do livro de orelhas

04.07.2016, 22h16

A casa é como um cenário, onde móveis e tapetes insistem em imitar um lar. Do modo como estão dispostos, é evidente que falta-lhes uso. Os objetos são distribuídos para preencher vazios, aparentemente apenas para domar o espaço. Sobre o fogão, um vaso de plantas. Um telescópio na meio da sala. Uma cadeira virada para a parede. Uma cama no centro de uma das salas. Um corredor coberto de livros. Como um apartamento cujos donos teriam desaparecido em plena mudança, os objetos estão por ali, esperando. Tal era a natureza da relação entre a casa e seus habitantes. É notável que deixamos escapar naquela época o fato de que o que nos parecia apenas desinteresse poderia ter uma raiz mais soturna — o que, diante dos fatos recentes, é difícil negar — aqueles arranjos estranhos refletiam também a própria forma como eles percebiam e se aventuravam pelo mundo. O que para nós parece tão certo, para eles é completamente misterioso.




Lilo

04.07.2016, 21h28

Voltei do supermercado certo dia com uma coisa incrível. Era para comer. Eles chamam de “Lilo”, é azul e verde. A embalagem diz que tem todas as vitaminas. E ele também briha no escuro. Eu fiquei muitas horas olhando para aquilo. Lilo era realmente diferente de tudo o que eu já havia visto em toda a minha vida. Minha namorada na época encontrou uma receita na internet e resolvemos experimentar. Devíamos cozinhar metade do Lilo e o restante fatiar em cubos iguais e servir frio. É preciso dizer que o Lilo cozido ficou com uma aparência horrível, mas a combinação se revelou perfeita. Sabe quando uma ideia nova muda tudo? Aquele sabor alterou nossa percepção para sempre. Sempre! Eu finalmente entendi como é possível diferenciar o gosto de todos os tipos de plástico. E a riqueza das texturas orgânicas? É fenomenal. O mundo ficou delicioso depois daquela primeira mordida. É incrível. Passamos a escolher nossas compras pelos nomes dos pigmentos, extratos, ácidos e estabilizantes presentes no que comeríamos. Ao mesmo tempo comecei a me interessar por engenharia, era formidável o que os laboratórios estavam fazendo com os alimentos. A pesquisa era promissora, não há limites. Me senti mais apto, mais confiante, esclarecido. A sensação de bem estar era incrível. O dinheiro começou a se aproximar com mais intensidade. Lilo2 foi lançado seis meses depois da primeira mordida e eu secretamente comecei a planejar um doutorado em filosofia e bioengenharia. Minha tese era sobre variações nos padrões genéticos e suas implicações na percepção e na consciência. Eu me casei naquele ano e encontramos um apartamento excelente próximo da universidade. Minha mulher sorriu para mim uma noite e eu me convenci de que o mundo era um lugar perfeito. Bebemos vinho, falamos sobre o Universo. Transamos violentamente. Eu me levantei e olhei para ela. Ela sorriu e então eu finalmente vi. Aqueles grandes vazios bem no interior dos seus olhos. Ela falava comigo e eu me perdia naqueles vazios.

— Eu quero Lilo. Traga-me o Lilo!

Pensei em pegar minha arma e acertá-la na testa. Fatiei o Lilo cru e coloquei no prato. Ela entrou na cozinha e disse:

— Lilo.

Eu peguei a faca mais próxima e acordei.

— Você estava tendo um pesadelo?

— O quê?

Minha namorada olhava curiosa para mim enquanto bebia seu drink.

— Sim, você cochilou aí no sofá e parecia estar sonhando. Era um pesadelo, não era?

— O que aconteceu?

— Eles ainda não chegaram, estamos esperando.

— Quem?

— Toma, bebe isso aqui. Os loucos ainda não chegaram.

— Você não quer mais o Lilo?

— Lilo? O que é isso?





sorrir

04.07.2016, 20h59

Um sonho. As mídias sociais eram a forma de vida dominante no planeta. Os escravos as alimentavam absolutamente todo o tempo; e quanto mais elas cresciam, mais eles sorriam. Depois de alguns anos, os músculos do rosto já não conseguiam mais parar de sorrir, e embora as pessoas vez ou outra ficassem bastante tristes, não era mais possível perceber a diferença tão facilmente... exceto se você olhasse bem profundamente para o interior secreto dos olhos.





Em uma superquadra

04.07.2016, 17h47

De repente as pessoas começaram a correr, para todos os lados, eu ouvi gritos, me abaixei por instinto, sem entender o que estava acontecendo... até ver, lá do outro lado da quadra, as pessoas caindo no chão, uma de cada vez, e não levantando mais. Muitos gritos. Então eu vi os dois andando calmamente, cada um com sua espingarda. Pareciam muito tranquilos, estavam sorrindo até, e disparavam com tanta calma.

Eu comecei a correr para o outro lado, pulei a cerca viva de um jardim e pude ver a dez metros de mim a testa de um homem explodindo sem fazer som nenhum, olhei para aquilo sem me mover, até que finalmente ouvi o pesado corpo indo ao chão e me escondi novamente atrás das plantas.  Alguns minutos se passaram, me levantei lentamente para ver se podia correr e aí os dois olharam pra mim:

—Seu sonho vai acabar agora.